Quando alguém comete um acto de que a maior parte das pessoas mentalmente sãs nunca seria capaz, existe a normal tentação de pensar que o autor só pode ser louco. Mas a História, desde a mais distante à mais recente, demonstra que quase todas as barbaridades já foram cometidas e a questão da loucura não se colocou nem tão pouco poderia ser utilizada como argumento. Encontra-se em julgamento o cobarde Anders Behring Breivik, que assassinou 77 pessoas num só dia mas não enfrentou um único homem armado. Estando determinada a sua culpa, o tribunal tenta apurar o seu grau de sanidade. Foi sugerido que Breivik poderia estar num estado psicótico no dia em que cometeu o atentado à bomba e a chacina na ilha de Utoeya. Esse argumento parece insustentável se tivermos em conta que Anders começou a planear e montar os atentados no ano de 2002. Seria um muito longo estado psicótico, embora seja honesto da minha parte admitir que não faço a menor ideia se é comum ou possível um estado psicótico durar 10 anos. Mas sei que essa justificação não é obrigatória. Todos os dias são assassinadas pessoas em assaltos, umas vezes por grandes quantias, outras nem por isso. No México são assassinadas e mutiladas pessoas todos os dias na luta pelo controlo do narcotráfico junto à fronteira com os EUA. Em 1994, no Ruanda, os membros da etnia Hutu perseguiram e chacinaram 800 mil Tutsis ao longo de 5 meses. Os sérvios fuzilaram 8.000 bósnios num só dia. Os soviéticos executaram 22 mil polacos no Massacre de Katyn. Como é bem conhecido, os nazis conduziram uma política de extermínio dos judeus, tendo eliminado 6 milhões nos campos de concentração. E não faltam na História muitos e muitos e muitos mais exemplos de mortes por motivações políticas, religiosas, pela luxúria do poder, pela ganância ou simplesmente pela sobrevivência. Muito dificilmente se poderia argumentar que do lado confortável do gatilho ou da catana esteve sempre um psicótico temporário.
No caso de Breivik tratou-se de uma estranha mistura de narcisismo com xenofobia e um extremo desprezo pela vida humana.
São ou não, o maior castigo para Breivik seria o seu internamento psiquiátrico. Seria o maior golpe para o seu ego.
This blog's purpose is to help me consolidate my thoughts about science, politics and social issues, whatever. Past entries all in Portuguese, current ones either in English or Portuguese. Depends on context.
terça-feira, 24 de abril de 2012
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Atira, atira!
Marcelo Rebelo de Sousa é uma jóia de pessoa. Primeiro há que agradecer o serviço público que presta com regularidade e que consiste em explicar o que Cavaco pretende dizer sempre que coincide mexer a boca, com expirar e fazer vibrar as cordas vocais. É verdade que é um processo complicado, o que pode explicar a quantidade de vezes que é necessário explicar os conceitos que passavam na cabeça de Cavaco quando calhou tropeçar na língua. E talvez por ser tão frequente de certa forma compreendo a preocupação do Professor com a prática nacional do tiro ao Cavaco. Na minha perspectiva chega a ser cobardia criticar Cavaco. É como pregar partidas a um ceguinho ou ver um bêbado a dirigir-se para uma estrada movimentada e em vez de o tentar impedir, procurar o melhor local para colocar a cadeirinha para assistir ao espectáculo. Afinal, a culpa não é dele, ele simplesmente não é capaz de fazer melhor. Infelizmente, porque a sua profissão a isso obriga, não pode deixar de se pronunciar. É uma pena para ele a para o país.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O Padrão Presidencial
O nosso actual Presidente da República (PR) segue um padrão muito interessante. Quando lhe fazem perguntas incómodas começa por responder tentando colocar-se acima dos restantes mortais e depois desvia a conversa. Quando lhe perguntaram sobre as acções do BPN, a resposta do PR foi que era tão honesto, mas tão honesto, que qualquer pessoa teria de nascer duas vezes para ser mais honesta do que ele. Quando lhe perguntaram qual a razão que o levou a dar meia-volta no percurso para a António Arroio, começou por responder que foi uma razão de força maior, que no passado, enquanto Primeiro-Ministro já tinha enfrentado muitas situações de vários tipos, passando depois a divagar sobre questões de economia. Quando a pergunta foi repetida por outra jornalista, perguntando-lhe qual teria sido a razão de força maior, teve o descaramento de dizer seguia a política de, uma vez respondida uma pergunta, não voltar a respondê-la. Ao que a jornalista retorquiu que ele não tinha respondido exactamente à pergunta que lhe tinha sido colocada. Mas esta já não teve direito a resposta por parte do PR.
Cavaco Silva sabe em que país vivemos. Sabe que não estamos em Inglaterra onde um ministro acusado de ter convencido a mulher a assumir uma multa de trânsito que era dele se demite quando o caso é conhecido. O ex-ministro demitiu-se para que as suas responsabilidades não fossem prejudicadas pela distracção decorrente do processo judicial que inevitavelmente se seguiria. Também sabe que Portugal não é a Alemanha onde o Presidente se demitiu por indícios de suborno. Na Alemanha o Ministério Público não se ensaia de pedir o levantamento da imunidade do próprio Presidente se houver indícios de prevaricação.
Sobre Cavaco muitas dúvidas se abatem, mas Cavaco nunca se sente abatido. Cavaco, o homem que nunca tem dúvidas e raramente se engana, seguramente por influencia divina, está acima de explicações. O que acaba por ter as suas vantagens porque já se percebeu que quando Cavaco se alonga no discurso facilmente mete os pés pelas mãos. Cavaco é o homem que se pode dar ao luxo de se queixar das dificuldades que tem em fazer face às suas despesas mensais, esquecendo-se de referir € 11.800,00 dos rendimentos mensais do seu agregado familiar. Não fosse pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e nunca ninguém saberia o que o PR pretendia dizer em vez do que na realidade disse.
Num país onde muitos parecem imunes à responsabilidade criminal, não é de estranhar que as responsabilidades moral e política sejam conceitos alienígenas.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Morrer todos morremos
Tanta gente a rejubilar pela morte de um homicida triplo e não se apercebem que o homem matou duas mulheres e uma menina e ainda escolheu quando e como morrer. O homem furtou-se à Justiça, a 25 anos entre quatro paredes com o desprezo e violência dos restantes reclusos e com o remorso diário pela barbaridade que cometeu. Trata-se de um homem que tinha sido diagnosticado com depressão crónica e para quem a morte foi seguramente uma libertação. Mas não falta quem pense que o verdadeiro castigo foi a antecipação de algo que a todos está reservado. Exercitem esse cérebro, faz-vos falta.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
E agora, algo completamente diferente
Uma das grandes pedras de toque da Apple é que a Microsoft se limitou a copiar as suas ideias na criação do Windows. O processo evolutivo do Windows foi marcado por inúmeros processos da Apple por infracção de diversas patentes, sendo assumido que no início a Microsoft utilizou mesmo determinados componentes e conceitos patenteados pela Apple, uns através de licenciamento, outros nem por isso. Mas parece que finalmente a Microsoft criou uma interface realmente diferente. A nova interface do Windows Phone 7 tem um paradigma completamente diferente relativamente às interfaces do iPhone (iOS) e do Android, sendo que o Android se colou muito ao iPhone em termos gráficos. No fundo, as interfaces do iPhone e do Android passam muito por uma adaptação do conceito de área de trabalho (desktop) com a interacção pelo toque. Já a Microsoft optou por um conceito completamente inovador que se centra no conteúdo em detrimento do impacto gráfico. Esta interface segue uma linguagem de desenho a que a Microsoft chamou Metro e que a própria Microsoft descreve da seguinte forma:
"Metro is the name of the new design language created for the Windows Phone 7 interface. When given the chance for a fresh start, the Windows Phone design team drew from many sources of inspiration to determine the guiding principles for the next generation phone interface. Sources included Swiss influenced print and packaging with its emphasis on simplicity, way-finding graphics found in transportation hubs and other Microsoft software such as Zune, Office Labs and games with a strong focus on motion and content over chrome.
Not only has the new design language enabled a unique and immersive experience for users of Windows Phone 7; it has also revitalized third party applications. The standards that have been developed for Metro provide a great baseline, for designers and developers alike. Those standards help them to create successful gesture-driven Windows Phone 7 experiences built for small devices."
A PC Word faz uma análise comparativa dos 3 sistemas operativos que é muito interessante. Resta saber se a opção da Microsoft vai convencer os utilizadores de telemóveis, que têm tendência a optar mais em função do brilho que da facilidade de utilização.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Lonesone Dove
Há uns anos atrás passou Lonesone Dove, uma mini-série fabulosa transmitida em quatro episódios e somando 6 horas. Tratava-se de um Western, filmado em baseado numa novela com o mesmo nome e que ganhou o Prémio Pulitzer. A série propriamente dita teve 18 nomeações para os Emmys, das quais conquistou sete, tendo ainda ganho dois Golden Globes. É uma das melhores séries que já vi, magistralmente interpretada por Tommy Lee Jones (Capitão Woodrow F. Call) e Robert Duval (Capitão Augustus "Gus" Mc Crae) no papel de dois rangers reformados que decidem levar gado de Lonesone Dove, Texas, para o Montana, acompanhados por um grupo de vaqueiros. Uma das melhores cenas da série, passa-se numa pequena cidade onde a comitiva pára para comprar abastecimentos e o Capitão Call se apercebe de que um batedor da Cavalaria está a espancar o seu filho. Esta cena é o primeiro resultado que se obtém quando se pesquisa "Lonesone Dove" no YouTube:
"I can't tolerate rude behaviour in a man"
Não atingindo os níveis de quase hiper-realismo cru de Deadwood, uma série de HBO de 2004, o argumento de Lonesone Dove é cativante, a realização é eficaz, a fotografia tem excelente qualidade e as personagens são bem construídas e excepcionalmente bem representadas. Trata-se de uma série imune à passagem do tempo e que será sempre agradável revisitar.
domingo, 22 de janeiro de 2012
O Economista que não sabia gerir as suas despesas
Cavaco Silva, economista, professor de Economia, ex-Primeiro Ministro e actual Presidente da República levantou a hipótese de vir a ter dificuldades em fazer face às suas despesas. Aparentemente, as duas pensões a que Cavaco tem direito enquanto professor reformado e reformado do Banco de Portugal e que totalizam 10.000 € por mês, poderão não ser suficientes para dar resposta às necessidades do casal Silva. Para completar as contas convém não esquecer a pensão da esposa de Cavaco de cerca de 600 € mensais. As pessoas poderão perguntar-se como pode ser possível que um casal daquela idade possa ter dificuldades financeiras quando aufere 10.600 € por mês. Bom, na realidade é um fenómeno muito comum. A minha mulher é analista de crédito e conta-me imensos casos deste género que lhe passam pelas mãos todos os dias. Há várias situações que levam a que pessoas com rendimentos muito elevados possam não ter dinheiro suficiente para as suas necessidades. Na realidade é irrelevante quanto é que uma pessoa ganha. Seja muito ou pouco, é sempre possível assumir responsabilidades acima da respectiva capacidade financeira. Existem inúmeras situações que podem levar a este desiquilíbrio financeiro na vida de um casal. Por exemplo, um ou ambos os membros do casal poderão ser susceptíveis ao vício do jogo. Muitas vezes trata-se de créditos acumulados em inúmeras empresas financeiras de concessão de crédito (CETELEM, Cofidis e outras do género). Utilização abusiva do cartão de crédito. Recurso sistemático ao saldo negativo da conta ordenado. Por vezes trata-se de pessoas que se constituíram fiadores para o empréstimo de um familiar ou amigo, sendo que esse familiar ou amigo deixa de honrar as suas responsabilidades e o fiador tem de assumir a o pagamento do empréstimo. Noutros casos as pessoas até tinham capacidade financeira para as responsabilidades que tinham assumido mas um dos membros do casal é despedido e as entradas descem para um nível abaixo das saídas (este caso sabemos que não se aplica porque são ambos reformados e o Cavaco tem emprego). Se calhar o casal Silva comprometeu-se a pagar o ballet, a equitação, as aulas de inglês, francês e mandarim, bem como o ténis e o golfe de todos os netos e sobrinhos. Ou a esposa de Cavaco estoura o cartão de crédito todo em chapéus e vestidos. A questão é que não é difícil gastar mais de 10.600 € por mês... mas também é verdade que para se chegar lá é preciso parar de controlar as próprias contas. E esperava-se mais de um economista que já geriu o país enquanto Primeiro-Ministro e que é actualmente Presidente da República.
Público: Cavaco diz que as reformas dele não chegarão para pagar despesas
P.S.: A estas contas falta ainda acrescentar os € 2.500,00 mensais a que Cavaco tem direito a título de despesas de representação. Somando tudo o casal Silva tem direito a uma renda mensal de € 13.100,00. Coitados.
P.S.: A estas contas falta ainda acrescentar os € 2.500,00 mensais a que Cavaco tem direito a título de despesas de representação. Somando tudo o casal Silva tem direito a uma renda mensal de € 13.100,00. Coitados.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
E quem fala assim...
Gostei da entrevista da Luís Figo no Público. Claro e sem meias tintas. E estou como ele. Gerações sucessivas de políticos têm afundado este país, porventura até ao ponto do não-retorno.
Típica é a reacção dos necrófagos que povoam a caixa de comentários daquele jornal. A maioria apresenta-se muito escandalizada pelas palavras do ex-jogador, mas penso que isso não espelha mais que a corriqueira inveja do portuguesinho. No caso do Figo parece-me que a equação é bastante simples: tornou-se um jogador de excepção, o que o colocou nos maiores clubes mundiais e lhe deu contratos milionários com esses clubes e com grandes empresas que queriam associar a sua imagem à de Figo e estavam dispostas a pagar por isso. E pagaram. E ele recebeu, investiu e fez mais dinheiro. Nalguns casos ganhou, noutros seguramente terá perdido. Qual é o problema? Ninguém se preocupa com o dinheiro que ele perdeu mas todos se sentem muito ofendidos com o que ele ganhou. A inveja é uma coisa muito feia.
http://desporto.publico.pt/noticia.aspx?id=1525463
Típica é a reacção dos necrófagos que povoam a caixa de comentários daquele jornal. A maioria apresenta-se muito escandalizada pelas palavras do ex-jogador, mas penso que isso não espelha mais que a corriqueira inveja do portuguesinho. No caso do Figo parece-me que a equação é bastante simples: tornou-se um jogador de excepção, o que o colocou nos maiores clubes mundiais e lhe deu contratos milionários com esses clubes e com grandes empresas que queriam associar a sua imagem à de Figo e estavam dispostas a pagar por isso. E pagaram. E ele recebeu, investiu e fez mais dinheiro. Nalguns casos ganhou, noutros seguramente terá perdido. Qual é o problema? Ninguém se preocupa com o dinheiro que ele perdeu mas todos se sentem muito ofendidos com o que ele ganhou. A inveja é uma coisa muito feia.
http://desporto.publico.pt/noticia.aspx?id=1525463
domingo, 18 de dezembro de 2011
Um sorriso absurdamente longo
Faz-me pena a pobre rapariga que faz aquele anúncio da SIC. Deve ter sido muito duro estar ali aquele tempo todo a forçar toda a variedade possível de sorrisos. Em abono da moça, ninguém conseguiria fazer tal absurdo melhor do que aquilo.
A morte de um ateu
Christopher Hitchens ateu indefectível, escritor e jornalista morreu no dia 15 de Dezembro de 2011. Morreu cedo, aos 62 anos, mas teve uma vida preenchida e muito produtiva. Autor de uma extensa bibliografia e colunista, abordava temas políticos, sociais, religiosos e culturais. Mais do que ateu, Christopher autoentitulava-se antiteísta, considerando que a religião era uma força destrutiva e que devias ser combatida. Pouco conheço de Christopher Hitchens. Tenho um livro dele de 2007, "deus não é grande" mas ainda estou no início, é um pouco cedo para ter uma opinião. Mas felizmente nos tempos que correm existe um manancial enorme de intervenções, entrevistas e debates acessíveis no YouTube e que permitem de uma forma fácil conhecer o estilo e argumentos deste pensador. É verdade que esta é apenas uma face da pessoa, porque a capacidade de exposição não é igual na forma verbal e na forma escrita. Mas as intervenções que vi deixam claro que se trata de um homem cheio de humor, de uma grande riqueza cultural e com grande capacidade de argumentação e de sustentação dos seus argumentos. Deixou uma obra de grande dimensão e riqueza que seguramente me enriquecerá muito daqui para a frente.
É claro que a morte de um conhecido ateu deu origem a manifestações de satisfação de muitos energúmenos religiosos que nas suas opiniões boçais e vingativas demonstram à saciedade que Hitchens tem razão quando aponta a religião como um perigo contra a própria civilização. Mas fui agradavelmente surpreendido com um artigo curto mas objectivo do Christian Post sobre a morte do ateu, mostrando que nem todos os crentes carecem de desportivismo e de valores Humanistas como o reconhecimento do direito ao livre pensamento, à opinião e à sua livre expressão.
A minha opinião sobre as religiões é que estas de facto têm um potencial de perigo extremamente elevado, tendo este potencial sido concretizado inúmeras vezes como a História cabalmente demonstra, mas também penso que é justo reconhecer que muitas pessoas são intrinsecamente boas e que é através da sua associação à religião que encontram forma de transformar a sua bondade em resultados práticos, ajudando outros.
Quanto à dimensão de deus, o que eu estranho é que muitos crentes não se apercebam quão pequenino e mesquinho é o deus em que acreditam. Ou seja, quando se regozijam com a morte de um ateu porque finalmente vai ser confrontado com deus e, seguramente, castigado, estão na realidade a passar um atestado de menoridade ao deus em que acreditam. Acreditam num deus vingativo, que toma nota do que as pessoas, no seu livre arbítrio, pensam e fazem, para depois as castigar quando estas acabarem o seu percurso na "vida terrena". Acreditam num deus que castiga a honestidade intelectual de quem não baseia o seu raciocínio num conjunto de dogmas datados e desajustados do actual estado civilizacional, mas antes na observação dos factos tal como se lhe apresentam, no estudo do comportamento humano, da História ou da Ciência. Acreditam num deus que castiga quem tem o desejo de conhecer mais da realidade que o rodeia, das regras que regem o funcionamento de todas as coisas e que não aceitam pretensas "verdades definitivas" escritas em livros recheados de histórias da carochinha.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Não há p'rái uma ilha deserta?
Às vezes ponho-me a pensar se ainda existirão pequenas ilhas desertas capazes de sustentar uma pessoa até ao fim dos seus dias. Teria de ter água limpa, animais, peixes e frutos. Não esquecendo uma boa ligação à net, claro... Não, agora a sério. Por vezes sonho com uma estadia forçada numa ilha deserta. Um dia a dia dedicado à sobrevivência, à criação de um abrigo, à exploração do ambiente circundante, à construção de ferramentas, armas de caça, ao fabrico de roupas e utensílios para cozinhar, etc. Quanto mais exótica for a ilha, maiores os riscos. Animais perigosos, doenças, frutos venenosos e tempestades são riscos associados a uma situação de sobrevivência numa ilha que podem tornar a vida muito complicada. E pequenas coisas ainda mais simples podem significar o fim. Por exemplo, um corte infectado, uma reacção alérgica. O filme "O Náufrago" (Cast Away de Robert Zemeckis) ilustra bem a situação quando Chuck Noland (Tom Hanks) se vê obrigado a arrancar um dente com ferramentas cirúrgicas de precisão (um patim de patinar no gelo e um calhau da praia). Mas de todos os riscos não sei se a solidão não será o maior. Será que a ausência de contacto humano levaria qualquer pessoa à loucura? Será que numa situação destas uma depressão pode sobrepor-se ao instinto de sobrevivência? Será que um náufrago pode pura e simplesmente desistir de viver, parando de se alimentar até a morte chegar?
Chuck Noland minimizou a solidão imaginando Wilson, um companheiro fictício materializado com a ajuda de uma bola de voleibol que um dia acabaria por se furar. Chuck chegou mesmo a discutir violentamente com Wilson e a cortar relações com ele. Algo de que rapidamente se arrependeu.
Voltando aos pormenores práticos, o fogo não é essencial, mas ajuda muito. A comida cozinhada é mais segura, permite ferver água e aumenta a segurança contra animais selvagens. Mas fazer fogo nem sempre é tarefa fácil.
Um náufrago estaria perante muitos desafios, mas será que conseguiria chegar a velho?
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Menos um ditador
42 anos de ditadura acabam da pior maneira para Muhamar Kadhafi. Os rebeldes aplicaram ao ditador o mesmo tipo de tolerância e justiça com que este governou a Líbia. Não foi bonito, mas Kadhafi não esperaria com certeza que o fim pudesse ter sido outro. Disse que lutaria até ao fim e quase cumpriu a sua promessa. Morreu sem glória, numa poça de sangue, um espectáculo deplorável que se espera não seja um indício da futura Líbia democrática.
domingo, 16 de outubro de 2011
Conversa fictícia
Há uns tempos atrás decidi passar a andar nu em casa. O meu emprego obriga-me a andar todos os dias de fato e gravata e senti que podia extravasar um pouco libertando o meu corpo de qualquer constrangimento. E seria uma maneira de juntar o útil ao agradável. Ultimamente tenho sentido os testículos demasiado quentes e a exposição ao ar seguramente me faria sentir melhor. De maneira que um dia cheguei a casa, como de costume depois da minha mulher e dos miúdos:
- Vou mudar de roupa - disse eu.
- Ok.
Em vez de despir a roupa do trabalho e vestir a usual t-shirt rota com os costumeiros calções manchados, despi tudo. Voltei à cozinha para fazer o jantar.
- Vais tomar banho?
- Aaaah... não, por que é que perguntas?
- Não estás a pensar fazer o jantar todo nu?!
- Não estou?
- Mas a que propósito?!
- Oh mor, preciso de liberdade. Passo o dia todo com aquela gravata sufocante ao pescoço. Assim nu sinto-me um como um enforcado que conseguiu fugir no último instante. Sinto-me liberto!
Olhou para mim, saiu da cozinha e voltou com uma toalha da cara.
- Toma.
Fiquei a olhar para ela com um olhar expectante.
- Sim?
- Tens de andar sempre com esta toalha.
- Para quê?
- Sempre que te sentares tens de te sentar em cima da toalha.
- Oh mor, então eu livro-me de uma grilheta e tu queres pôr-me outra?!
- É uma solução de compromisso! Achas que eu gosto que andes para aí com tudo a abanar pela casa toda?! Não viste aquele episódio do Seinfeld? (1) Há nu bonito e nu feio. Um homem a cozinhar todo nu com a pila encostada à bancada da cozinha cai na segunda categoria!!!
- Não percebo essa súbita preocupação com a possibilidade de o meu rabo assentar no sofá da sala. Já mocámos éne vezes no sofá e não me lembro de te ter ouvido "Espera mor, deixa pôr esta toalha por baixo, por uma questão de higiene."
- Mas o que é isso, mocar?
- Oh! Sexo, foder!
- FAZER AMOR!!!!
- Pronto, tá bem. Já "fizémos amor" éne vezes no sofá e não me lembro de te ter ouvido "Espera mor, deixa pôr esta toalha por baixo, por uma questão de higiene."
- Não me interessa! Queres andar nu, sentas-te em cima da toalha!
Ao princípio andava com a toalha na mão. Mas não era prático. Depois atei um cordel à volta da cintura onde pendurava a toalha. Mas era ridículo. Tentei então usar só os boxers. Mas embora os meus testículos se sentissem livres que nem um presidiário em precária, não gostava de os ver espreitar quando me sentava com as pernas um bocadinho mais abertas. De maneira que voltei ao velho conjunto t-shirt rota com calções manchados.
É por causa de coisas destas que volta e meia há um tipo nos EUA que se passa e mata os colegas todos no trabalho.
(1)É verdade, nos dias de hoje os diálogos entre mim e a minha mulher até já têm apontadores integrados. (Voltar)
Este texto foi inspirado pela peça "É como diz o outro" encenada por Tiago Guedes com Miguel Guilherme e Bruno Nogueira.
- Vou mudar de roupa - disse eu.
- Ok.
Em vez de despir a roupa do trabalho e vestir a usual t-shirt rota com os costumeiros calções manchados, despi tudo. Voltei à cozinha para fazer o jantar.
- Vais tomar banho?
- Aaaah... não, por que é que perguntas?
- Não estás a pensar fazer o jantar todo nu?!
- Não estou?
- Mas a que propósito?!
- Oh mor, preciso de liberdade. Passo o dia todo com aquela gravata sufocante ao pescoço. Assim nu sinto-me um como um enforcado que conseguiu fugir no último instante. Sinto-me liberto!
Olhou para mim, saiu da cozinha e voltou com uma toalha da cara.
- Toma.
Fiquei a olhar para ela com um olhar expectante.
- Sim?
- Tens de andar sempre com esta toalha.
- Para quê?
- Sempre que te sentares tens de te sentar em cima da toalha.
- Oh mor, então eu livro-me de uma grilheta e tu queres pôr-me outra?!
- É uma solução de compromisso! Achas que eu gosto que andes para aí com tudo a abanar pela casa toda?! Não viste aquele episódio do Seinfeld? (1) Há nu bonito e nu feio. Um homem a cozinhar todo nu com a pila encostada à bancada da cozinha cai na segunda categoria!!!
- Não percebo essa súbita preocupação com a possibilidade de o meu rabo assentar no sofá da sala. Já mocámos éne vezes no sofá e não me lembro de te ter ouvido "Espera mor, deixa pôr esta toalha por baixo, por uma questão de higiene."
- Mas o que é isso, mocar?
- Oh! Sexo, foder!
- FAZER AMOR!!!!
- Pronto, tá bem. Já "fizémos amor" éne vezes no sofá e não me lembro de te ter ouvido "Espera mor, deixa pôr esta toalha por baixo, por uma questão de higiene."
- Não me interessa! Queres andar nu, sentas-te em cima da toalha!
Ao princípio andava com a toalha na mão. Mas não era prático. Depois atei um cordel à volta da cintura onde pendurava a toalha. Mas era ridículo. Tentei então usar só os boxers. Mas embora os meus testículos se sentissem livres que nem um presidiário em precária, não gostava de os ver espreitar quando me sentava com as pernas um bocadinho mais abertas. De maneira que voltei ao velho conjunto t-shirt rota com calções manchados.
É por causa de coisas destas que volta e meia há um tipo nos EUA que se passa e mata os colegas todos no trabalho.
(1)É verdade, nos dias de hoje os diálogos entre mim e a minha mulher até já têm apontadores integrados. (Voltar)
Este texto foi inspirado pela peça "É como diz o outro" encenada por Tiago Guedes com Miguel Guilherme e Bruno Nogueira.
sábado, 15 de outubro de 2011
All work and no play makes Jack a dull boy
Esta ideia de que aumentar o horário de trabalho vai aumentar a produtividade seria muito interessante se não fosse completamente absurda. Aumentar o horário só pode ter uma consequência: o aumento da desmotivação e do sentido de injustiça. Não é que fosse ainda necessária essa medida para os portugueses se sentirem desmotivados e injustiçados. Passos Coelho já tinha conseguido isso com as suas medidas de ataque à classe média, aumentando o IVA e cortando os subsídios de férias e de Natal. Suponho que nesse campo este Governo seja particularmente meticuloso.
O aumento da produtividade consegue-se de várias formas. Não sendo eu um especialista na matéria, acho que ninguém me desmentirá se disser que os aumentos de produtividade se conseguem com medidas de optimização dos processos e com a motivação dos trabalhadores. Nenhum desses caminhos é fácil ou oferece resultados rápidos. Mas se queremos aumentar a produtividade essa é a única forma. O aumento do horário de trabalho vai ter como único efeito que as pessoas em vez de passarem 1 hora a pensar na hora de saída, vão adquirir o dúbio direito a estender por mais meia-hora esse anseio.
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Um projecto essencial
Ouvi hoje na TSF, na rubrica "Mundo Novo", a descrição de uma nova tecnologia com potencial para revolucionar a pesca industrial e com ganhos vitais para o meio ambiente. É uma técnica designada por "Bubble Net"e que consiste em, nada mais, nada menos, que adoptar uma técnica de pesca utilizada pelas baleias corcundas. Estas baleias criam uma parede de bolhas em espiral em torno de cardumes de peixes, impedindo-os de se dispersar. No fim do processo, a baleia apanha o cardume. A técnica "Bubble Net" consiste em criar uma parede de bolhas através de um conjunto de mangueiras e apanhar os peixes através de uma bomba de sucção. Os ganhos podem ser descritos a três níveis:
- Redução do impacto de outras espécies que ficam muitas vezes presas nas redes e são devolvidas ao mar já mortas;
- Melhoria na qualidade do peixe pescado através da redução da manipulação e dos danos causados pelas próprias redes;
- Maior facilidade no cumprimento das quotas para cada espécie, uma vez que passa a ser possível terminar a captura quando uma vez que a quota tenha sido atingida;
http://www.wix.com/bubblenet/promar#!projecto
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Suspender o Magalhães para avaliar os resultados?
Ora aí está algo de que eu não estava à espera vindo deste Ministro da Educação. Tenho uma excelente opinião sobre Nuno Crato, em especial pelo seu trabalho de divulgação científica a que tenho assistido ao longo do tempo. Nunca fui um espectador assíduo do programa Plano Inclinado, mas dos poucos que vi em que o Nuno Crato participou, tenho a ideia de que sempre apresentou as suas ideias de uma forma equilibrada e ponderada. Estou de acordo que o caminho de facilitismo seguido nos últimos anos vai ter sérias consequências a curto e médio prazo e que o uso de máquinas de calcular até pode ser parte desse problema. Dá-me a volta ao estômago (calculo que a ele também) o trabalho que tem sido feito ao nível da avaliação dos estudantes que basicamente consiste um proibir os professores de os chumbar com o objectivo de fazer os meninos passar o mais depressa pelo ensino obrigatório para finalmente podermos melhorar as estatísticas e mostrar à União Europeia. Estou de acordo que as estatísticas podem parecer bonitas no papel mas que a consequência disso serão gerações inteiras (ou quase) de analfabetos funcionais. Compreendo tudo isso e espero que os próximos governos não insistam no erro, a começar por este XIX Governo Constitucional de Portugal. Mas o que não consigo compreender é que se suspenda o programa de distribuição de computadores Magalhães, uma das boas apostas do Governo Sócrates, com o argumento de que pretendem avaliar os resultados. Gostava que me explicassem que raio de resultados estão à espera que um programa que consiste em entregar computadores portáteis a crianças de 5 anos pode apresentar ao fim de apenas 2 anos!!! Vão ver se os meninos já sabem usar criar pivot tables no Excel? Terão a expectativa que se tenham todos tornado génios da informática de um ano para o outro? Ou será que estão à espera que as crianças já tenham fundado muitas dotComs? Este é um programa, tal como as más opções dos Ministérios da Educação da última década (décadas?), precisa de pelo menos 10 anos para mostrar resultados. Um programa desta natureza iria contribuir em muito para reduzir a info-exclusão. O que se pretende é que esta geração tenha um tal à-vontade com os computadores que estes venham a ser uma ferramenta sem segredos. Tanto quanto eu sei, salvo alguma calamidade que nos leve a todos de volta para a Idade da Pedra, a informática continuará a ser um factor incontornável no futuro.
A distribuição dos Magalhães é tão importante para o futuro de Portugal como aumentar o nível de exigência do ensino. Espero que Nuno Crato o compreenda a tempo e que não confunda os computadores com as máquinas de calcular.
sábado, 3 de setembro de 2011
Ad nauseam
Há pelo menos dois romances que já foram explorados ad nauseam e que demonstram uma séria incapacidade da indústria cinematográfica para se renovar. Sim, como provavelmente já devem ter adivinhado, estou a falar do Robin dos Bosques e dos Três Mosqueteiros. O Robin dos Bosques é uma personagem lendária que tem sido explorada em diversas séries e filmes, mas em relação à qual existem referências desde 1420. Foi passada ao formato audiovisual pela primeira vez num filme mudo de 1908, realizado por Percy Stow e com o título de Robin Hood and His Merry Men. Parece o título de um filme de porno gay, mas na altura a produção de filmes devia ser tão cara que provavelmente não existia essa especialidade de pornografia cinematográfica. A Wikipedia tem o registo de nada menos que 47 filmes e 12 séries de televisão, produzidos entre os anos de 1908 e 2011, em que o Robin dos Bosques é a figura central. Os filmes abrangem pelo menos 3 tipos: aventuras, comédia e pornográfico.
O romance Os Três Mosqueteiros foi escrito por Alexandre Dumas "apenas" em 1844. No entanto a dimensão do abuso audiovisual desta obra é só um pouco menor que a da personagem anterior: de 1912 a 2011 existem nada mais, nada menos que 34 adaptações sob a forma de filmes, séries e filmes animados.
Isto para não falar das adaptações ao teatro, à banda desenhada e ainda ao ballet.
Existem ainda outras obras que são muito exploradas, nomeadamente as das personagens Sherlock Holmes, as obras de Jules Verne, entre outras. Mas quer-me parecer que as duas que referi são do mais abusado que se pode encontrar.
Se calhar já chega, não?
O romance Os Três Mosqueteiros foi escrito por Alexandre Dumas "apenas" em 1844. No entanto a dimensão do abuso audiovisual desta obra é só um pouco menor que a da personagem anterior: de 1912 a 2011 existem nada mais, nada menos que 34 adaptações sob a forma de filmes, séries e filmes animados.
Isto para não falar das adaptações ao teatro, à banda desenhada e ainda ao ballet.
Existem ainda outras obras que são muito exploradas, nomeadamente as das personagens Sherlock Holmes, as obras de Jules Verne, entre outras. Mas quer-me parecer que as duas que referi são do mais abusado que se pode encontrar.
Se calhar já chega, não?
sábado, 18 de junho de 2011
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Perdidos - O Fim da Série
Terminei de ver esta série fantástica. Embora considere o final à altura do resto da série, não esperava que o fim da série trouxesse um sentimento de paz, de encerramento. Toda o resto da série foi um sufoco de perguntas por responder, cada resposta a gerar mais cinco perguntas, cada episódio acabando sempre com uma injecção de adrenalina, uma sensação de negação, de rejeição por a história só avançar mais na semana seguinte. Habituado a esta sensação contínua, penso que no meu íntimo já me tinha habituado à ideia de que o fim da série seria uma coisa muito mal enjorcada que me deixaria uma sensação de que os argumentistas teriam construído um final à pressa que deixaria muitas pontas soltas e outras mal resolvidas.
É um síndrome típico destas séries. Lembro-me de ver grandes discussões em fóruns sobre os Ficheiros Secretos (X-Files) em que os fãs discutiam que o que verdadeiramente se tinha passado neste ou naquele episódio tinha sido isto ou aquilo. A nítida sensação que eu tinha era que os argumentistas da série não pensavam das perguntas que a série deixava por responder. Ou seja, o subtítulo da série "The Truth is Out There", nunca passou de falsa publicidade. Não há verdade nenhuma porque os argumentistas nunca pensaram nas causas dos mistérios, preocupando-se apenas em criar emoções nos espectadores. O que no fundo também é legítimo: deixavam aos espectadores a opção de imaginar o que entendessem. Mas em Perdidos, os produtores conseguiram concretizar o objectivo de fazer uma série com princípio, meio e fim antes de lhes fecharem a torneira, obrigando-os a deixar a história a meio ou a fazer um fim à pressa, como já vi acontecer em tantas séries. A guerra das audiências é cruel.
Mas voltando aos Perdidos, as respostas chegaram mesmo e o encerramento da série foi extremamente elegante. Achei fabulosa a forma como as personagens se encontram todas na espécie de sala de espera depois da morte que era a realidade alternativa que nos confundiu ao longo da 6ª temporada. A ideia de que cada um morreu na sua hora, mas que todos se encontraram numa vida depois da morte para seguirem juntos para a próxima etapa é muito interessante, dando uma interpretação diferente e mais fácil de compreender da relatividade do Tempo, que já tinha sido explorada noutras temporadas da série. A forma como a morte de algumas das personagens foi representada é também muito comovente. Quando Jin e Sun morrem juntos dentro do submarino, o espectador sente que uma pessoa pode escolher o momento da sua morte. E quando Jack morre olhando para o céu enquanto os seus companheiros sobrevoam a ilha, sentimos que a morte pode ser recebida em paz, com a certeza de que fizemos a diferença. O facto de Vincent, o cão de Walt, encontrar Jack pouco antes da sua morte, permite-lhe ultrapassar o medo de morrer sozinho e torna a experiência libertadora para a personagem e para o espectador. É claro que a série não é perfeita. Com tempo seria muito fácil apresentar incongruências. Mas foi um marco na História da Televisão.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Estrumpfes estalinistas
Segundo Antoine Buéno, as histórias de Peyo sobre os minúsculos seres azuis que nomeou de Estrumpfes (Schtroumpfs no original) são a descrição de uma sociedade estalinista. Esta leitura política dos estrumfes é uma delícia. Valeu uma boa gargalhada. Vou já recuperar os meus livros dos estrumpfes e não me posso esquecer de fazer este enquadramento quando contar as histórias aos meus filhos. Quem diria que esta série podia ser utilizada como introdução à política. Só há uma coisa que me faz confusão. Se o Papá Estrumpfe é a representação de Estaline, quem será a personagem histórica correspondente ao Gargamel, o mau da fita? Torna-se particularmente confuso porque Estaline foi uma besta abominável, mas nas histórias de Peyo, era o Gargamel quem ocupava o seu tempo a tentar destruir a povoação de seres azuis, recorrendo aos mais mirabolantes esquemas. Para o retrato histórico ser mais preciso seria necessário que, volta e meia, o Papá Estrumpfe levasse a cabo umas quantas purgas no aparelho político, deportações para locais remotos e gelados, eliminação física dos seus opositores e invasão de regiões vizinhas. E não me parece que a estrumpfina lhe escapasse...
in Público
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