sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Asteróides, venham eles!

Neste artigo da BBC é brevemente apresentada a questão da mineração dos asteróides no espaço. Aparentemente existe legislação de 1966 das Nações Unidas que impide a exploração comercial de qualquer corpo celestial. Na minha opinião existem duas situações claramente diferentes: de um lado a Lua e alguns planetas/luas que poderão conter vida, como é o caso de Europa, uma das luas de Júpiter, do outro lado todos os asteróides. Os corpos celestes do primeiro grupo devem ter toda a protecção possível e imaginária contra a exploração comercial. A Lua é demasiado importante para toda a Terra para que alguém se possa arrogar o direito de a explorar comercialmente. Quando a Europa, se existe a possibilidade de albergar vida no oceano protegido pela superfície gelada então a Humanidade não pode correr o risco de destruir essa possibilidade por questões comerciais. Já quanto aos restantes objectos do sistema solar a questão é bem diferente. Não vejo que faça sentido ou que exista legitimidade para impedir a exploração comercial destes objectos que são riquíssimos em água, minerais e metais. Mais do que isso, acho que é do interesse do planeta que essa exploração comece tão cedo quanto possível. Em primeiro lugar porque isso reduzirá a pressão sobre os recursos da Terra. Em segundo lugar porque é do interesse de todos que se comecem a identificar e a por em prática formas de controlar asteróides e cometas que representam um perigo para a Humanidade.

sábado, 21 de junho de 2014

A razão pela qual o porco está na gaiola

Tenho um porquinho da Índia como animal de estimação. Os miúdos é que o quiseram mas o bicho é meu e da minha mulher. Mais meu que da minha o mulher uma vez que na realidade sou eu que faço quase tudo. Enfim.

Até hoje o bicho tem estado sempre à solta, mas passou das marcas e fechei-o da gaiola. Tão cedo não sai de lá. Já por várias vezes que o tinha avisado de que não podía cagar fora da gaiola e normalmente até se portava bem. Mas hoje encontrei umas 30 caganitas debaixo de uma mesa da cozinha e depois de tanto o avisar achei que já chegava. E dizem vocês, "Ai, oh Paulo, mas coitadinho do bicho, não vês que ele não percebe?". E então, o que é que querem que eu faça? Se o bicho não aprende não pode estar cá fora, é tão simples como isso. Imaginem que eu tinha um tigre de Bengala e deixava-o andar à solta pela casa. A primeira visita que ele comesse, pronto, dava-se um desconto, podía ter sido acidente. Da segunda vez, enfim, estaría na brincadeira, ter-se-á entusiasmado.  Mas à terceira tinha mesmo de ir para a gaiola. É porque depois dá imenso trabalho convencer a polícia de que o bicho não fez por mal, que foi só na brincadeira. Depois as pessoas começam a não querer aparecer cá por casa. É só chatices.

sábado, 8 de março de 2014

A Prescrição volta a atacar

Jardim Gonçalves viu reduzidas a metade as coimas a que tinha sido condenado pelo Banco de Portugal (BdP) e anulada a proibição de ter actividade profissional na banca por 9 anos. Mais uma vez, através do mecanismo da prescrição, um caso de crime económico fica por julgar em Portugal. Num caso em que existe um milhão de euros em coimas em jogo, quando há prescrição não há consequências para ninguém? Quem é que estava a dormir? Ou será que é o mecanismo que está errado? Uma coisa é certa, Jardim Gonçalves sacode o problema dos ombros, pode voltar às falcatruas e ainda pode fazer de vítima por não lhe ter sido dada a oportunidade de provar a sua inocência. A prescrição é o Euromilhões dos corruptos.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Pimenta no rabo dos outros...

Eu e a minha mulher estivemos hoje a recordar com prazer uma das cenas mais hilariantes a que já assistimos na nossa vida. Até estou espantado por nunca ter escrito sobre esse acontecimento, mas a verdade é que não encontrei nenhum texto neste blogue sobre este assunto.

Bom, então há muitos, muitos anos, quando ainda não tínhamos filhos, fomos fazer uma Passagem de Ano em Nelas, Concelho de Viseu, a casa de um amigo/colega da minha mulher. Na realidade, o dono da casa não era do nosso círculo de amigos mais próximos, mas outros amigos em comum eram. Dentro desses amigos há um casal em que são ambos um pouco peculiares, muito em particular, ele que é uma pessoa muito pouco característica. Pela sua postura perante a vida, pelos seus gostos e passatempos, pelo seu percurso de vida, etc. É um tipo um pouco excessivo numa série de coisas, entre as quais a comida. É um gajo porreiro mas um bocado inútil em casa. Tanto quanto sei, em casa só ocupa espaço. Não ajuda a mulher em nada e recusa-se a tirar a carta pelo que tudo o que implica deslocações obriga a mulher a ir. Idas ao médico, ir levar e buscar as miúdas à escola, ir às compras, etc, ou vai sozinha, ou tem de o levar a ele. Uma coisa é certa, aquele carro sem ela não se mexe. E é um tipo fino. De manhã vai de carro com a mulher para Lisboa, ela deixa-o num sítio qualquer e o rapaz daí para o trabalho só mesmo de táxi. Transportes públicos não são para ele. Ao fim do dia há mais táxi. Bom, é lá com eles. À parte estes pormenores é um tipo porreiro e é interessante conversar com ele porque é culto e tem coisas divertidas para contar.

Regressando a Nelas, num dos dias fomos almoçar fora. Cada um comeu a sua coisa, e ele pediu uma posta mirandesa, ou um bife, não sei. A verdade é que, como é um tipo um bocado exagerado, cortou um naco de um tamanho absurdo e foi mesmo assim para dentro da boca. Andou com a carne às voltas dentro da boca durante um bocado, mas ao fim de um pouco tornou-se evidente que não era possível mastigar aquilo. Como dava um bocado mau aspecto cuspir a carne para o prato e a situação estava a tornar-se incomportável, o meu amigo tentou empurrar o naco para baixo com vinho tinto. Entretanto já toda a gente se tinha apercebido de que a coisa estava complicada. Foi por isso que toda a gente o viu a levantar-se da mesa com ar atrapalhado enquanto o vinho voltava pelo mesmo caminho por onde tinha entrado uma vez que, tal era o tamanho do pedaço de carne que tinha entupido completamente a canalização. Nesta altura já se lhe via pânico nos olhos. E foi com um ruído curioso que um pedaço de carne de grandes dimensões lhe voou directamente da garganta para cima da mesa. A mulher dele estava nervosíssima a mandar vir com ele e o dono da casa onde passámos o Ano encolhia-se contra as costas da cadeira o mais que podia com um ar enojado, tentando aumentar a distância entre si e aquele pedaço mal-tratado de carne. Um dos empregados aproximou-se rapidamente para compor a mesa e a cena terminou com o meu amigo a apanhar o pedaço de carne com o guardanapo e a entregá-lo ao empregado - "Olhe, já agora leve também isto".

Com toda aquela alarvidade, a mim já me doía a barriga de tanto rir...

domingo, 29 de setembro de 2013

Produção de energia a partir de águas residuais

Ouvi isto em vários dos podcasts que sigo e achei maravilhoso. Actualmente já é possível produzir electricidade a partir de águas residuais, sejam elas domésticas ou industriais. Isto é conseguido através de baterias microbianas.

De acordo com a introdução do artigo científico [Xing Xie et al., Microbial battery for efficient energy recovery], "micróbios num ânodo oxidam matérias orgânicas dissolvidas, libertando electrões para um circuito externo, a partir do qual a energia pode ser extraída.Os electrões entram então num eléctrodo de estado sólido que mantém esse estado enquanto os electrões se acumulam dentro deste. O eléctrodo de estado sólido é retirado periodicamente da bateria, oxidado e re-instalado para uma produção de energia sustentada. Não é introduzido oxigénio molecular na bateria e são evitadas membranas de permuta de iões permitindo eficiências elevadas na recuperação de energia."

O principal obstáculo à utilização generalizada desta tecnologia prende-se com a utilização de prata no fabrico da bateria, o que encarece a sua produção. Um dos principais objectivos da utilização desta tecnologia seria a redução ou eliminação das necessidades de produção de energia para tratamento de águas residuais, podendo eventualmente vir a ser possível que seja possível produzir mais electricidade do que a que é consumida por este tratamento. Isto seriam muito boas notícias principalmente para países em vias de desenvolvimento em que os custos de tratamento de águas residuais são muitas vezes proibitivos.

domingo, 31 de março de 2013

Da Constituição e da Responsabilidade

A chamada de atenção de Passos Coelho ao Tribunal Institucional, afirmando que este será responsável não só pela sua decisão como também pelas consequências desta, é um atentado à Democracia que o envergonha a ele e ao País. Apresentar um (na realidade, dois. E seguidos) Orçamento de Estado inconstitucional e depois queixar-se de que o Tribunal Constitucional o chumba, é o mesmo que cuspir para o ar e acusar a gravidade de lhe atirar com cuspo para a cara. Sem dúvida que para Passos, a Constituição da República Portuguesa é um pormenor com o qual não deveria ter de se preocupar, e não deixa de ser verdade que o Tribunal Constitucional lhe terá criado essa expectativa quando deixou passar o Orçamento de Estado de 2012 apesar das inconstitucionalidades detectadas. Espera-se que o mesmo expediente não seja repetido para o OE de 2013. Em primeiro lugar, e seguramente mais importante, porque uma piada repetida acaba por se tornar aborrecida e em segundo porque, apesar de tudo, Portugal é um democracia constitucional e não é suposto os Governos, por mais maioritários que sejam, beneficiarem da suspensão da Constituição quando esta se torna inconveniente. Tendo em conta que a última revisão da Constituição foi em 2005, Passos não se pode queixar de não conhecer as regras e se não lhe agradavam não devia ter assumido o cargo que assumiu.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Sentido da Vida

Acabei de ver o filme "Up in the Air", realizado em 2009 por Jason Reitman, com o George Clooney no papel principal. Gostei do filme. Dou-lhe 8 em 10 pelo argumento, pelos diálogos e pela realização. Uma das coisas que me desconcertou, que me fez sentir uma profunda desagrado com a realidade, foi a forma idílica como são representadas as viagens de avião. As cenas de paisagens filmadas a partir do ar com uma qualidade e clareza sem mácula e acompanhadas por um maravilhoso silêncio não podiam estar mais longe da realidade. Andar de avião é desconfortável. É barulhento. Aquele barulho de fundo que nunca se vai embora acumula com a pressão artificial que faz com que os pés inchem dentro dos sapatos. E quando se olha pela janela, as mais belas paisagens perdem sempre cor devido ao reflexo na janelas duplas. Isto quando não se vai em cima da asa, o que arrasa qualquer hipótese de se ver seja que paisagem for. Mas adiante. O que me fez pegar no blogue foi a pergunta que ecoa ao longo de todo o filme: qual é o sentido da vida? É uma pergunta eterna que porventura toda a gente já se colocou. Mas é pergunta que tresanda a religião. Por que carga de água terá a vida que ter algum sentido? Qual é o sentido da vida de um lagarto? Qual é o sentido da vida de uma bactéria? A vida não tem que ter nenhum sentido. Para achar que sim é preciso acreditar no destino. É preciso acreditar que existe uma peça de teatro cósmica em que todos temos um papel a desempenhar. Mas para quê? Com que objectivo? Para a Glória de deus, respondem alguns. Mas por que é que deus tem de ser glorificado? Ele precisa disso? Se tem necessidades, isso não faz dele menos divino? Adiante. Ao longo da nossa vida, o Sentido vai mudando. Quando nascemos nem temos consciência de nós próprios. Nos primeiros anos só queremos brincar, evitar tudo o que seja aborrecido, gastar energia. Entrando na puberdade começa a necessidade de afirmação, a dinâmica de grupo, a instabilidade hormonal, a necessidade de sexo e as primeiras paixões. Aos poucos vão-nos sendo impostas obrigações, que vão crescendo ao longo da vida. A partir do momento em que ganhamos obrigações parece quase irrelevante procurar um sentido na vida e antes disso, a pergunta nem sequer faz sentido. Independentemente de qual seja esse sentido, existem coisas que temos de fazer, sob pena de várias coisas. Quando se tem filhos, quem tem tempo para questionar se tudo isto faz sentido?
É necessário trabalhar todos os dias, não porque temos um papel para desempenhar no Grande Esquema das Coisas, mas antes porque se não o fizermos não teremos dinheiro para comida, para roupa, para uma casa, já para não falar dos luxos dos países ricos, como carros, aparelhos electrónicos, televisão por cabo e por aí fora. À medida que se vai envelhecendo as preocupações vão mudando, os filhos saem de casa (às vezes). O Sentido da Vida, assim mesmo em maiúsculas, não existe. Algumas pessoas não têm, nem podem ter, um horizonte mais ambicioso que a sobrevivência diária. Outras podem dar-se ao luxo de dedicar a sua vida a procurar maneiras de escapar ao tédio. De um extremo ao outro, cabe a cada um dar um sentido à sua própria vida. Isso passa, obviamente, por estabelecer objectivos e trabalhar para os alcançar. Tudo o resto são balelas.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Dois cromos de platina

Sou ouvinte assíduo da Caderneta de Cromos do Nuno Markl, da qual sou fã (na vida real, não no Facebook), mas fiquei em êxtase, quase a atingir o orgasmo, com dois fabulosos cromos: Chucky, o boneco diabólico e Já fumega. A qualidade do texto do primeiro é estrondosa. O Markl estaria particularmente inspirado, quem sabe depois de uma noite de sexo fantástico ou talvez após um período de jejum sexual ou simplesmente porque dormiu bem... ou ainda por outra razão qualquer. A verdade é que o ritmo imposto pelo texto é extremamente envolvente, de grande qualidade e divertido. Não é alheio ao factor envolvência a utilização da banda sonora do filme, num volume que me parece mais alto que o costume, mas que alcança um resultado muito bom. Digamos que o Markl conseguiu algo que os comentadores de futebol em Portugal nunca conseguiram: fazer o seu comentário utilizando o ruído de fundo do estádio para transmitir a atmosfera do jogo.


O segundo cromo, que na realidade é o primeiro do dia, tem o grande mérito de me ter feito ver a grande qualidade do grupo português Jafumega. Quando as músicas passavam pela rádio eu não ligava pevide à música... pensando bem, ainda não ligo. Seja como for, a verdade é que ouvindo este cromo com a música da banda em fundo se torna flagrante a sua qualidade. Algumas piadas fantásticas como a comparação do estilo da banda ao de uma associação de professores de trabalhos oficinais. O que é fantástico é que, não me recordando do aspecto dos Jafumega, mas perscrutando os confins da minha mui depauperada memória, ao reunir o único professor de Trabalhos Oficinais que tive com a prof e o prof de Educação Visual que tive em anos distintos, heis que se me forma uma imagem com grande precisão do aspecto que deveriam ter os Já Fumega. Bom, é claro que antes da piada já o Markl tinha feito uma descrição com grande detalhe da banda. E para confirmar a precisão da imagem reconstituída na minha mente, nada como uma pesquisa para confirmar o resultado:




Oh Diabo...! Parece que os professores de trabalhos oficinais do Markl seguiam um estilo de vestuário diferente dos meus... bom, enfim, talvez não ande muito longe da verdade.


Bom, não vamos deixar que um pequeno soluço estrague um dos melhores Cromos que ouvi nos últimos tempos. Como no anterior, a banda sonora deste Cromo cria uma um ambiente fantástico em que a qualidade das letras se combina com o excelente texto do Markl.


Para dizer a verdade, os Cromos sobre música e sobre bandas musicais são os de que gosto menos. Não é uma coisa de agora. Já nos tempos de antigamente, quando os programas do Herman José passavam pelo Serafim Saudade sentia um tédio de morte. Também nunca achei grande piada a concertos. O mês passado fui ver a Madonna a Coimbra e para dizer a verdade para mim não resultou.


Mas os Jafumega eram mesmo muito bons.



sábado, 19 de maio de 2012

A História não acaba. Ponto.

Capa do livro "A História não acaba assim" de Miguel Sousa Tavares


Miguel Sousa Tavares publicou recentemente o livro "A história não acaba assim", um conjunto de textos seus publicados no Expresso e no Público, expondo muitos dos desmandos, falcatruas e más decisões que paulatinamente têm vindo a afundar este país. Acho que se há algo que este livro demonstra é que não será por falta de liberdade de expressão que o país não avançará. Pelo que li e oiço de Miguel Sousa Tavares, os actos são identificados e os responsáveis apontados. Mas de que serve? Este misto tão português de falta de vergonha na cara, brandos costumes e fraca legislação ou falta de vontade de a aplicar, permitem que a incompetência e a corrupção lavrem sobre a pouca riqueza que este país ainda possa ter e produzir, como se de um fogo de Verão se tratasse. Que vantagens nos trouxe então a democracia? Podemos queixar-nos com relativa segurança, uns com tribuna, outros no café, mas sem abusar, porque em Portugal até os corruptos têm direito ao seu bom-nome. Pensei comprar o livro, mas de que me serve saber quem me rouba se nada posso fazer a esse respeito? Acho que só serviria para me irritar mais. Para além disso não tem versão para Kindle.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Ser louco ou não ser louco, heis a questão

Quando alguém comete um acto de que a maior parte das pessoas mentalmente sãs nunca seria capaz, existe a normal tentação de pensar que o autor só pode ser louco. Mas a História, desde a mais distante à mais recente, demonstra que quase todas as barbaridades já foram cometidas e a questão da loucura não se colocou nem tão pouco poderia ser utilizada como argumento. Encontra-se em julgamento o cobarde Anders Behring Breivik, que assassinou 77 pessoas num só dia mas não enfrentou um único homem armado. Estando determinada a sua culpa, o tribunal tenta apurar o seu grau de sanidade. Foi sugerido que Breivik poderia estar num estado psicótico no dia em que cometeu o atentado à bomba e a chacina na ilha de Utoeya. Esse argumento parece insustentável se tivermos em conta que Anders começou a planear e montar os atentados no ano de 2002. Seria um muito longo estado psicótico, embora seja honesto da minha parte admitir que não faço a menor ideia se é comum ou possível um estado psicótico durar 10 anos. Mas sei que essa justificação não é obrigatória. Todos os dias são assassinadas pessoas em assaltos, umas vezes por grandes quantias, outras nem por isso. No México são assassinadas e mutiladas pessoas todos os dias na luta pelo controlo do narcotráfico junto à fronteira com os EUA. Em 1994, no Ruanda, os membros da etnia Hutu perseguiram e chacinaram 800 mil Tutsis ao longo de 5 meses. Os sérvios fuzilaram 8.000 bósnios num só dia. Os soviéticos executaram 22 mil polacos no Massacre de Katyn. Como é bem conhecido, os nazis conduziram uma política de extermínio dos judeus, tendo eliminado 6 milhões nos campos de concentração. E não faltam na História muitos e muitos e muitos mais exemplos de mortes por motivações políticas, religiosas, pela luxúria do poder, pela ganância ou simplesmente pela sobrevivência. Muito dificilmente se poderia argumentar que do lado confortável do gatilho ou da catana esteve sempre um psicótico temporário.

No caso de Breivik tratou-se de uma estranha mistura de narcisismo com xenofobia e um extremo desprezo pela vida humana.

São ou não, o maior castigo para Breivik seria o seu internamento psiquiátrico. Seria o maior golpe para o seu ego.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Atira, atira!


Marcelo Rebelo de Sousa é uma jóia de pessoa. Primeiro há que agradecer o serviço público que presta com regularidade e que consiste em explicar o que Cavaco pretende dizer sempre que coincide mexer a boca, com expirar e fazer vibrar as cordas vocais. É verdade que é um processo complicado, o que pode explicar a quantidade de vezes que é necessário explicar os conceitos que passavam na cabeça de Cavaco quando calhou tropeçar na língua. E talvez por ser tão frequente de certa forma compreendo a preocupação do Professor com a prática nacional do tiro ao Cavaco. Na minha perspectiva chega a ser cobardia criticar Cavaco. É como pregar partidas a um ceguinho ou ver um bêbado a dirigir-se para uma estrada movimentada e em vez de o tentar impedir, procurar o melhor local para colocar a cadeirinha para assistir ao espectáculo. Afinal, a culpa não é dele, ele simplesmente não é capaz de fazer melhor. Infelizmente, porque a sua profissão a isso obriga, não pode deixar de se pronunciar. É uma pena para ele a para o país.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Padrão Presidencial

O nosso actual Presidente da República (PR) segue um padrão muito interessante. Quando lhe fazem perguntas incómodas começa por responder tentando colocar-se acima dos restantes mortais e depois desvia a conversa. Quando lhe perguntaram sobre as acções do BPN, a resposta do PR foi que era tão honesto, mas tão honesto, que qualquer pessoa teria de nascer duas vezes para ser mais honesta do que ele. Quando lhe perguntaram qual a razão que o levou a dar meia-volta no percurso para a António Arroio, começou por responder que foi uma razão de força maior, que no passado, enquanto Primeiro-Ministro já tinha enfrentado muitas situações de vários tipos, passando depois a divagar sobre questões de economia. Quando a pergunta foi repetida por outra jornalista, perguntando-lhe qual teria sido a razão de força maior, teve o descaramento de dizer seguia a política de, uma vez respondida uma pergunta, não voltar a respondê-la. Ao que a jornalista retorquiu que ele não tinha respondido exactamente à pergunta que lhe tinha sido colocada. Mas esta já não teve direito a resposta por parte do PR.

Cavaco Silva sabe em que país vivemos. Sabe que não estamos em Inglaterra onde um ministro acusado de ter convencido a mulher a assumir uma multa de trânsito que era dele se demite quando o caso é conhecido. O ex-ministro demitiu-se para que as suas responsabilidades não fossem prejudicadas pela distracção decorrente do processo judicial que inevitavelmente se seguiria. Também sabe que Portugal não é a Alemanha onde o Presidente se demitiu por indícios de suborno. Na Alemanha o Ministério Público não se ensaia de pedir o levantamento da imunidade do próprio Presidente se houver indícios de prevaricação.

Sobre Cavaco muitas dúvidas se abatem, mas Cavaco nunca se sente abatido. Cavaco, o homem que nunca tem dúvidas e raramente se engana, seguramente por influencia divina, está acima de explicações. O que acaba por ter as suas vantagens porque já se percebeu que quando Cavaco se alonga no discurso facilmente mete os pés pelas mãos. Cavaco é o homem que se pode dar ao luxo de se queixar das dificuldades que tem em fazer face às suas despesas mensais, esquecendo-se de referir € 11.800,00 dos  rendimentos mensais do seu agregado familiar. Não fosse pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa e nunca ninguém saberia o que o PR pretendia dizer em vez do que na realidade disse.

Num país onde muitos parecem imunes à responsabilidade criminal, não é de estranhar que as responsabilidades moral e política sejam conceitos alienígenas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Morrer todos morremos

Tanta gente a rejubilar pela morte de um homicida triplo e não se apercebem que o homem matou duas mulheres e uma menina e ainda escolheu quando e como morrer. O homem furtou-se à Justiça, a 25 anos entre quatro paredes com o desprezo e violência dos restantes reclusos e com o remorso diário pela barbaridade que cometeu. Trata-se de um homem que tinha sido diagnosticado com depressão crónica e para quem a morte foi seguramente uma libertação. Mas não falta quem pense que o verdadeiro castigo foi a antecipação de algo que a todos está reservado. Exercitem esse cérebro, faz-vos falta.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

E agora, algo completamente diferente


Uma das grandes pedras de toque da Apple é que a Microsoft se limitou a copiar as suas ideias na criação do Windows. O processo evolutivo do Windows foi marcado por inúmeros processos da Apple por infracção de diversas patentes, sendo assumido que no início a Microsoft utilizou mesmo determinados componentes e conceitos patenteados pela Apple, uns através de licenciamento, outros nem por isso. Mas parece que finalmente a Microsoft criou uma interface realmente diferente. A nova interface do Windows Phone 7 tem um paradigma completamente diferente relativamente às interfaces do iPhone (iOS) e do Android, sendo que o Android se colou muito ao iPhone em termos gráficos. No fundo, as interfaces do iPhone e do Android passam muito por uma adaptação do conceito de área de trabalho (desktop) com a interacção pelo toque. Já a Microsoft optou por um conceito completamente inovador que se centra no conteúdo em detrimento do impacto gráfico. Esta interface segue uma linguagem de desenho a que a Microsoft chamou Metro e que a própria Microsoft descreve da seguinte forma:

"Metro is the name of the new design language created for the Windows Phone 7 interface. When given the chance for a fresh start, the Windows Phone design team drew from many sources of inspiration to determine the guiding principles for the next generation phone interface. Sources included Swiss influenced print and packaging with its emphasis on simplicity, way-finding graphics found in transportation hubs and other Microsoft software such as Zune, Office Labs and games with a strong focus on motion and content over chrome.

Not only has the new design language enabled a unique and immersive experience for users of Windows Phone 7; it has also revitalized third party applications. The standards that have been developed for Metro provide a great baseline, for designers and developers alike. Those standards help them to create successful gesture-driven Windows Phone 7 experiences built for small devices."

A PC Word faz uma análise comparativa dos 3 sistemas operativos que é muito interessante. Resta saber se   a opção da Microsoft vai convencer os utilizadores de telemóveis, que têm tendência a optar mais em função do brilho que da facilidade de utilização.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Lonesone Dove


Há uns anos atrás passou Lonesone Dove, uma mini-série fabulosa transmitida em quatro episódios e somando 6 horas. Tratava-se de um Western, filmado em  baseado numa novela com o mesmo nome e que ganhou o Prémio Pulitzer. A série propriamente dita teve 18 nomeações para os Emmys, das quais conquistou sete, tendo ainda ganho dois Golden Globes. É uma das melhores séries que já vi, magistralmente interpretada por Tommy Lee Jones (Capitão Woodrow F. Call) e Robert Duval (Capitão Augustus "Gus" Mc Crae) no papel de dois rangers reformados que decidem levar gado de Lonesone Dove, Texas, para o Montana, acompanhados por um grupo de vaqueiros. Uma das melhores cenas da série, passa-se numa pequena cidade onde a comitiva pára para comprar abastecimentos e o Capitão Call se apercebe de que um batedor da Cavalaria está a espancar o seu filho. Esta cena é o primeiro resultado que se obtém quando se pesquisa "Lonesone Dove" no YouTube:


"I can't tolerate rude behaviour in a man"

Não atingindo os níveis de quase hiper-realismo cru de Deadwood, uma série de HBO de 2004, o argumento de Lonesone Dove é cativante, a realização é eficaz, a fotografia tem excelente qualidade e as personagens são bem construídas e excepcionalmente bem representadas. Trata-se de uma série imune à passagem do tempo e que será sempre agradável revisitar.

domingo, 22 de janeiro de 2012

O Economista que não sabia gerir as suas despesas



Cavaco Silva, economista, professor de Economia, ex-Primeiro Ministro e actual Presidente da República levantou a hipótese de vir a ter dificuldades em fazer face às suas despesas. Aparentemente, as duas pensões a que Cavaco tem direito enquanto professor reformado e reformado do Banco de Portugal e que totalizam 10.000 € por mês, poderão não ser suficientes para dar resposta às necessidades do casal Silva. Para completar as contas convém não esquecer a pensão da esposa de Cavaco de cerca de 600 € mensais. As pessoas poderão perguntar-se como pode ser possível que um casal daquela idade possa ter dificuldades financeiras quando aufere 10.600 € por mês. Bom, na realidade é um fenómeno muito comum. A minha mulher é analista de crédito e conta-me imensos casos deste género que lhe passam pelas mãos todos os dias. Há várias situações que levam a que pessoas com rendimentos muito elevados possam não ter dinheiro suficiente para as suas necessidades. Na realidade é irrelevante quanto é que uma pessoa ganha. Seja muito ou pouco, é sempre possível assumir responsabilidades acima da respectiva capacidade financeira. Existem inúmeras situações que podem levar a este desiquilíbrio financeiro na vida de um casal. Por exemplo, um ou ambos os membros do casal poderão ser susceptíveis ao vício do jogo. Muitas vezes trata-se de créditos acumulados em inúmeras empresas financeiras de concessão de crédito (CETELEM, Cofidis e outras do género). Utilização abusiva do cartão de crédito. Recurso sistemático ao saldo negativo da conta ordenado. Por vezes trata-se de pessoas que se constituíram fiadores para o empréstimo de um familiar ou amigo, sendo que esse familiar ou amigo deixa de honrar as suas responsabilidades e o fiador tem de assumir a o pagamento do empréstimo. Noutros casos as pessoas até tinham capacidade financeira para as responsabilidades que tinham assumido mas um dos membros do casal é despedido e as entradas descem para um nível abaixo das saídas (este caso sabemos que não se aplica porque são ambos reformados e o Cavaco tem emprego). Se calhar o casal Silva comprometeu-se a pagar o ballet, a equitação, as aulas de inglês, francês e mandarim, bem como o ténis e o golfe de todos os netos e sobrinhos. Ou a esposa de Cavaco estoura o cartão de crédito todo em chapéus e vestidos. A questão é que não é difícil gastar mais de 10.600 € por mês... mas também é verdade que para se chegar lá é preciso parar de controlar as próprias contas. E esperava-se mais de um economista que já geriu o país enquanto Primeiro-Ministro e que é actualmente Presidente da República.

Público: Cavaco diz que as reformas dele não chegarão para pagar despesas

P.S.: A estas contas falta ainda acrescentar os € 2.500,00 mensais a que Cavaco tem direito a título de despesas de representação. Somando tudo o casal Silva tem direito a uma renda mensal de € 13.100,00. Coitados.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E quem fala assim...

Gostei da entrevista da Luís Figo no Público. Claro e sem meias tintas. E estou como ele. Gerações sucessivas de políticos têm afundado este país, porventura até ao ponto do não-retorno.

Típica é a reacção dos necrófagos que povoam a caixa de comentários daquele jornal. A maioria apresenta-se muito escandalizada pelas palavras do ex-jogador, mas penso que isso não espelha mais que a corriqueira inveja do portuguesinho. No caso do Figo parece-me que a equação é bastante simples: tornou-se um jogador de excepção, o que o colocou nos maiores clubes mundiais e lhe deu contratos milionários com esses clubes e com grandes empresas que queriam associar a sua imagem à de Figo e estavam dispostas a pagar por isso. E pagaram. E ele recebeu, investiu e fez mais dinheiro. Nalguns casos ganhou, noutros seguramente terá perdido. Qual é o problema? Ninguém se preocupa com o dinheiro que ele perdeu mas todos se sentem muito ofendidos com o que ele ganhou. A inveja é uma coisa muito feia.

http://desporto.publico.pt/noticia.aspx?id=1525463


domingo, 18 de dezembro de 2011

Um sorriso absurdamente longo

Faz-me pena a pobre rapariga que faz aquele anúncio da SIC. Deve ter sido muito duro estar ali aquele tempo todo a forçar toda a variedade possível de sorrisos. Em abono da moça, ninguém conseguiria fazer tal absurdo melhor do que aquilo.

A morte de um ateu

 
Christopher Hitchens ateu indefectível, escritor e jornalista morreu no dia 15 de Dezembro de 2011. Morreu cedo, aos 62 anos, mas teve uma vida preenchida e muito produtiva. Autor de uma extensa bibliografia e colunista, abordava temas políticos, sociais, religiosos e culturais. Mais do que ateu, Christopher autoentitulava-se antiteísta, considerando que a religião era uma força destrutiva e que devias ser combatida. Pouco conheço de Christopher Hitchens. Tenho um livro dele de 2007, "deus não é grande" mas ainda estou no início, é um pouco cedo para ter uma opinião. Mas felizmente nos tempos que correm existe um manancial enorme de intervenções, entrevistas e debates acessíveis no YouTube e que permitem de uma forma fácil conhecer o estilo e argumentos deste pensador. É verdade que esta é apenas uma face da pessoa, porque a capacidade de exposição não é igual na forma verbal e na forma escrita. Mas as intervenções que vi deixam claro que se trata de um homem cheio de humor, de uma grande riqueza cultural e com grande capacidade de argumentação e de sustentação dos seus argumentos. Deixou uma obra de grande dimensão e riqueza que seguramente me enriquecerá muito daqui para a frente.

É claro que a morte de um conhecido ateu deu origem a manifestações de satisfação de muitos energúmenos religiosos que nas suas opiniões boçais e vingativas demonstram à saciedade que Hitchens tem razão quando aponta a religião como um perigo contra a própria civilização. Mas fui agradavelmente surpreendido com um artigo curto mas objectivo do Christian Post sobre a morte do ateu, mostrando que nem todos os crentes carecem de desportivismo e de valores Humanistas como o reconhecimento do direito ao livre pensamento, à opinião e à sua livre expressão.

A minha opinião sobre as religiões é que estas de facto têm um potencial de perigo extremamente elevado, tendo este potencial sido concretizado inúmeras vezes como a História cabalmente demonstra, mas também penso que é justo reconhecer que muitas pessoas são intrinsecamente boas e que é através da sua associação à religião que encontram forma de transformar a sua bondade em resultados práticos, ajudando outros.

Quanto à dimensão de deus, o que eu estranho é que muitos crentes não se apercebam quão pequenino e mesquinho é o deus em que acreditam. Ou seja, quando se regozijam com a morte de um ateu porque finalmente vai ser confrontado com deus e, seguramente, castigado, estão na realidade a passar um atestado de menoridade ao deus em que acreditam. Acreditam num deus vingativo, que toma nota do que as pessoas, no seu livre arbítrio, pensam e fazem, para depois as castigar quando estas acabarem o seu percurso na "vida terrena". Acreditam num deus que castiga a honestidade intelectual de quem não baseia o seu raciocínio num conjunto de dogmas datados e desajustados do actual estado civilizacional, mas antes na observação dos factos tal como se lhe apresentam, no estudo do comportamento humano, da História ou da Ciência. Acreditam num deus que castiga quem tem o desejo de conhecer mais da realidade que o rodeia, das regras que regem o funcionamento de todas as coisas e que não aceitam pretensas "verdades definitivas" escritas em livros recheados de histórias da carochinha.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não há p'rái uma ilha deserta?



Às vezes ponho-me a pensar se ainda existirão pequenas ilhas desertas capazes de sustentar uma pessoa até ao fim dos seus dias. Teria de ter água limpa, animais, peixes e frutos. Não esquecendo uma boa ligação à net, claro... Não, agora a sério. Por vezes sonho com uma estadia forçada numa ilha deserta. Um dia a dia dedicado à sobrevivência, à criação de um abrigo, à exploração do ambiente circundante, à construção de ferramentas, armas de caça, ao fabrico de roupas e utensílios para cozinhar, etc. Quanto mais exótica for a ilha, maiores os riscos. Animais perigosos, doenças, frutos venenosos e tempestades são riscos associados a uma situação de sobrevivência numa ilha que podem tornar a vida muito complicada. E pequenas coisas ainda mais simples podem significar o fim. Por exemplo, um corte infectado, uma reacção alérgica. O filme "O Náufrago" (Cast Away de Robert Zemeckis) ilustra bem a situação quando Chuck Noland (Tom Hanks) se vê obrigado a arrancar um dente com ferramentas cirúrgicas de precisão (um patim de patinar no gelo e um calhau da praia). Mas de todos os riscos não sei se a solidão não será o maior. Será que a ausência de contacto humano levaria qualquer pessoa à loucura? Será que numa situação destas uma depressão pode sobrepor-se ao instinto de sobrevivência? Será que um náufrago pode pura e simplesmente desistir de viver, parando de se alimentar até a morte chegar?



Chuck Noland minimizou a solidão imaginando Wilson, um companheiro fictício materializado com a ajuda de uma bola de voleibol que um dia acabaria por se furar. Chuck chegou mesmo a discutir violentamente com Wilson e a cortar relações com ele. Algo de que rapidamente se arrependeu.



Voltando aos pormenores práticos, o fogo não é essencial, mas ajuda muito. A comida cozinhada é mais segura, permite ferver água e aumenta a segurança contra animais selvagens. Mas fazer fogo nem sempre é tarefa fácil.

Um náufrago estaria perante muitos desafios, mas será que conseguiria chegar a velho?

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